Uma falsa partida
e uma reflexão sobre a injustiça da economia dos favores
Volto, enfim, depois de uma falsa partida. Recomecei esta newsletter há um ano e meio atrás mas entretanto meteu-se a vida e um trabalho auto-gerido que é o único que tenho, e que nem sempre me deixa “sobrar” tempo e cabeça para este trabalho de escrita e pensamento crítico. Volto com a intenção de não o abandonar e cumprir o prometido: textos mensais, formato long-read, com reflexões sobre trabalho, sociedade, manufatura e cultura material. “É apenas um pouco tarde” recomeça aqui.
“Na verdade, o meu problema nem é, estritamente, com as pessoas que aceitam todos os convites (mesmo os que sabem que não deviam aceitar): mas que se perpetue esta lógica de que alguns tipos de trabalho não têm de ser pagos porque são recompensados de outras formas: com projeção, com reconhecimento. Ora, isto tem vários problemas: e o primeiro deles é que as instituições que propõem esta troca têm, geralmente, uma ideia muito insuflada do que é a sua plataforma e o seu alcance. Além disso, há esta noção multiplicadora de que um trabalho vai dar origem a outros trabalhos, muitos trabalhos, e que por isso não faz mal que este, especificamente, não seja pago: outros hão de ser, outros hão de pagar.”
Excerto da newsletter da Livraria aberta, sobre uma questão tão banalizada que deixou de se falar nela, pelo menos abertamente (pun-intended). Acredito que não há ninguém, nas ditas profissões liberais, que não tenha sido afetado por esta ideia-feita de que os artistas e os criativos devem estar dispostos a partilhar o seu trabalho e o seu tempo sem esperar uma remuneração em troca.
Muito recentemente aconteceu comigo, através duma mensagem inocente de uma figura pública, que começava com parabéns pelos nossos produtos tão bonitos, e acabava com um pedido que ascenderia aos 1700 euros em troca de não-se-sabe-bem-o-quê. Publicidade? Projeção?
Como haveria publicidade suficiente para pagar mais de 1700 euros em produtos? Com uma campanha publicitária? Acabei por escolher não responder àquilo que me pareceu uma tentativa de “atirar o barro à parede”. Na verdade, respondi com um link para a nossa loja online, fazendo questão de tratar esta figura pública como qualquer outro cliente: oferecendo um desconto na compra de vários artigos, tal como faço com outros clientes, sejam pequenos negócios ou gabinetes de arquitetura.
De seguida, em conversa com amigos/trabalhadores-temporários-da-Mariamélia, ensaiamos várias respostas possíveis: esta figura pública, que trabalha na área da tv e do teatro, poderia abdicar do seu cachê no próximo espetáculo na cidade do Porto, como troca pelos produtos? Será que aceitaria esta provocação? Ou isso poderia fazê-la compreender o absurdo do seu “pedido”?
Outras ideias mais mirabolantes surgiram: a troca seria a produção de um vídeo, com produção profissional, em que esta figura pública (fiel à sua persona pública), pediria desculpas num tom visivelmente arrependido, por aquilo que ousou pedir, e prometia que nunca mais faria o mesmo a nenhuma outra marca ou criador. E esse vídeo seria divulgado nas redes sociais do próprio com a menção da @mariameliahome.
Apesar do divertimento a imaginar estes cenários cómicos, fiquei sempre com a sensação de que eu é que ficava a perder qualquer coisa. Como se quem estivesse em falta fosse eu: como se esta desconsideração do trabalho do outro fosse uma coisa sem importância. Esta espécie de sentimento de culpa invertido parece-me que vem precisamente da banalização da ideia que nos venderam de que exposição é o mesmo que publicidade, e que publicidade, por sua vez, é o mesmo que oportunidade de negócio, e portanto, de dinheiro. A tal “(…) noção multiplicadora de que um trabalho vai dar origem a outros trabalhos (…)”, que além de perversa é estatisticamente falsa. Não só porque, como sublinha o Ricardo no seu texto, estas instituições, ou neste caso, personalidades, “têm, geralmente, uma ideia muito insuflada do que é a sua plataforma e o seu alcance (…)”, como a inconsciência de que apostar neste processo como sistema para obter trabalho artístico, cumprir quotas, angariar clientes ou produtos, ou viabilizar projetos artísticos ou económicos, é distorcer, não só a ética do trabalho, como a possibilidade de fazer uma vida (digna) através de trabalho criativo/artístico de forma liberal. Porque são os que alcançam as tais plataformas (artificialmente) inflacionadas que se arrogam no direito de pedir essas borlas, como se todos os outros estivessem um pouco abaixo de si, e ganhariam, portanto, em estar associados à sua marca (pessoal ou institucional).
Estas não são noções conscientes, mas banalizações resultantes da prática recorrente da menorização do trabalho dos outros, dos que não acederam (ainda) à tal cúpula de influência, e que, portanto, devem submeter-se aos que lhes estendem as mãos, benevolentes. Poderão dizer também, em sua defesa, como em tantas outras coisas perversas neste mundo, que “não foram obrigados a nada” — quando a proposta é em si uma cilada absoluta. Porque através das redes sociais — e da sua influência desproporcionada sobre os media tradicionais — normalizamos à exaustão a cultura dos likes e dos influencers como sinónimo de dinheiro e trabalho, quando são apenas mais uma face de uma cultura económica especulativa e parasitária, em que as pessoas com maior capital de atenção se aproveitam da impunidade que esta cultura lhes oferece e capitalizam-na a seu favor. Naquela mensagem que recebi, não era só mais um artista a pedir uma borla nuns candeeiros novos para a sua casa de campo, era também uma armadilha.
E então, que melhor forma de honrar o espírito desprovido de ética desta cultura das borlas, que expor este caso a quem o quiser conhecer, para capitalizar mais leitores para a minha newsletter? Que melhor forma de atrair leitores que um caso “mediático”, mesmo que sem nomes, sem acusações? Não estarei eu também a cair numa armadilha? E que tal aproveitar este espírito #metoo, e convocar outros criativos: pequenas marcas, artesãos e artistas a partilharem os seus encontros com aqueles que pediram borlas, favores, presenças, biscates, sem nunca nomear dinheiro diretamente? E os que propuseram “exposição” como forma de ganhar dinheiro magicamente? Que se até as celebridades de pacotilha conseguem capitalizar a sua “presença” em eventos e clubes noturnos, porque serão os artistas e criativos uma excepção neste cenário, se parte precisamente deles a possibilidade de criar eventos inteiros?
E com isto não me estou a opor a eventos solidários, a iniciativas comunitárias, a projetos que pretendem devolver à comunidade — muito pelo contrário. São precisamente estas lógicas comunitárias, de redes de apoio, de redes de amizade que estão a ser postas em causa quando se utilizam perversamente as mesmas motivações para fins lucrativos. Porque as instituições, as empresas, as marcas, os tais artistas iluminados ganham com este sistema ao pouparem muito dinheiro na remuneração justa do trabalho de quem precisam para os seus projetos, ou só mesmo para renovar as suas casas de campo com candeeiros bonitos.
“(…) Peguemos no exemplo de uma coisa que cai muitas vezes na economia do favor (não sei que outra coisa lhe chamar), apesar de esses favores estarem, na maior parte das vezes, fora da lógica das redes de amizade, o que torna tudo ainda mais incompreensível: ao mesmo tempo, mais normalizado.”
Ricardo Braun, idem
Esta economia do favor — que belo termo — torna a banalização da borla numa coisa quase fixe, que quase que nos faz “amigos a sério”. E pensando esta economia num contexto de celebridades de tv/cinema mas também das redes sociais: esta cria uma ideia altamente perversa, e mesmo corrupta, de que se estivermos dispostos a bajular alguém que admiramos, essa pessoa poderá ser uma forma de ascendermos ao seu estatuto num determinado meio; quando na maioria das vezes são apenas essas mesmas celebridades que precisam de gente que trabalhe gratuitamente para elas, seja a criar uma ideia falsa de que a sua influência real é muito maior do que é na realidade, seja mantendo a hierarquia necessária para que possam continuar a viver dessa mesma influência. Um movimento duplamente perverso, que ampara a ideia cada vez mais frágil (e parasita) de influência mediática.
“(…) Entretanto, passámos de uma coisa que é voluntária, a vontade de desmonetizar certas relações, passámos do favor fundado na amizade ou na afinidade, no desejo de ver coisas a acontecer no mundo, para uma outra coisa que é sistémica e que é eufemística: porque tudo substitui a palavra trabalho, tudo substitui a palavra dinheiro.”
Ricardo Braun, idem
Tal como os colaboradores que não são mais trabalhadores, e o salário que é agora a remuneração. E os trabalhos que são projetos, e os projetos, toda a gente sabe, que são oportunidades. E devagar, devagarinho, eliminamos a tensão das relações de poder da linguagem e ensaiamos assim, uma retórica onde não existem desigualdades e lugares de poder antagónicos; onde qualquer coisa pode ser a ou b, conforme quisermos e desejarmos, se nos pudermos de acordo. Onde não há uma assunção clara de que vimos de sítios diferentes, temos níveis de influência (reais) diferentes no mundo, e devemos agir de acordo com essa consciência (de classe), e de acordo com o privilégio que ou herdamos e/ou acumulamos de outra forma.
Mas é fácil perceber o absurdo de tudo isto (desta ordem natural das coisas) quando perguntamos a nós mesmos: a que grupo de pessoas é que pedimos favores? Que confiança temos com elas? O que definiríamos, aliás, como um favor? Dá-me o teu sofá? Boleia? Ajuda a pintar a casa? Porque haveríamos de guiar-nos por outros critérios quando se trata de pedir a pessoas que mal conhecemos que ofereçam o fruto do seu trabalho?
Ricardo Braun, idem
E apontando o espelho a mim mesma sobre a ética nestas lides: todos os autores que cito nesta newsletter são autores cujos livros compro regularmente, e por vezes, cito diretamente dos próprios livros. No caso das fontes jornalísticas, faço por apoiar como posso alguns projetos de jornalismo independente nacionais. No caso das citações deste artigo: sou cliente da Livraria Aberta que aconselho que visitem na vossa próxima ida à invicta. Encomendem aqui os vossos livros, mesmo aqueles mesmo difíceis de encontrar e subscrevam esta newsletter imperdível, escrita a quatro mãos pelos donos da livraria: o Ricardo Braun e o Paulo Brás, que nos têm oferecido tanto que pensar <3




Obrigada Filipa, por nos manteres de olhos bem abertos!